A TEORIA ESTÁ MORTA?
Reflexões em torno do debate sobre práticas projectivas, «Projective landscape» TU Delft 03.2006 *
Por Ricardo Prata e Miguel Machado (AAI)
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Num período que muitos definem como um período pós-teórico ou pós-critico (1), parece não existirem conceitos que permitam descrever ou rotular a produção arquitectónica contemporânea.
De facto, hoje assistimos a um intenso debate sobre a própria forma do projecto teórico-disciplinar; um debate solicitado em parte pelos acontecimentos geopolíticos que confirmaram o fenómeno global e o seu modo de imposição cultural. A questão da arquitectura pós-crítica, vulgarmente designada de «prática projectiva ou teoria projectiva (2)» tem sido desde há algum tempo bastante discutida dentro do panorama teórico americano e encontra algum paralelismo no contexto europeu em torno de conceitos como «optimismo operativo» ou «novo pragmatismo». Todavia, enquanto que nos EUA o debate parece estar centralizado numa reacção relativamente à teoria e à obra da figura fundamental que é Peter Eisenman; na Europa reflecte uma certa praxis arquitectónica : o reconhecimento de que a capacidade crítica da arquitectura só se consegue mover dentro de certos limites, e que para nos referirmos às condições contemporâneas são necessários novos instrumentos para além das técnicas relativamente comuns da critica sociológica.
Na tentativa de procurar encontrar afinidades entre estes diferentes pontos de vista, a associação STYLOS (3) organizou nos dias 16 e 17 de Março de 2006 na TU DELFT um debate alargado sobre práticas projectivas, convidando vários intervenientes europeus e americanos, de diversos quadrantes operacionais (académicos, editoriais e do próprio meio arquitectónico). O objectivo passava antes de mais pela definição do modelo de prática projectiva, tanto de um ponto de vista conceptual como projectual.
De facto, hoje «o criticismo» está debaixo de fogo. Michael Speaks, ex docente da Sci-arc, é um dos primeiros a atacar a «arquitectura critica», ou melhor, os paladinos da «hiper teoria» de inspiração marxista e o academicismo de elite americano, acusando-os de «inibirem o desenvolvimento de formas alternativas de pensamento»(4).
Com Stan Allen do Field Operations, Sylvia Lavin e Robert Somol docentes na UCLA e ainda Sarah Whiting da Graduate School of Design em Harvard constituem um grupo que George Baird (5) chama os «pós-criticos» (ainda que o próprio Speaks rejeite essa designação). Este grupo tem essencialmente em comum – com diferentes grau de intensidade – a aversão pura e dura à teoria arquitectónica tout-court (para eles entendida como um «dispositivo critico obsoleto, antítese de um verdadeiro pragmatismo pós-industrial ou de um utopismo pós-moderno ingénuo e bem intencionado»(6)). Aliás, se por um lado, Lavin e Allen são bastante claros ao defini-la como uma nostalgia ou adereço histórico absolutamente irrelevante no contexto contemporâneo, Speaks é mais radical e dramático ao afirmar que «a teoria não é só irrelevante mas era, e continua a ser um impedimento ao desenvolvimento de uma cultura inovadora ou criativa no campo arquitectónico.»(7)
Do ponto de vista institucional, os alvos destas críticas não são difíceis de adivinhar – a Columbia University de New York e a Graduate School of Design de Harvard – até porque existe uma co-relação fundamental destas escolas com duas personagens chave no panorama americano: o já mencionado Peter Eisenman e Michael Hays (professor de Teoria da Arquitectura na Graduate School de Harvard) que é um defensor declarado da escola marxista – de inspiração Tafuriana.
A abordagem marxista, que nos Estados Unidos se difunde principalmente através das revistas Oppositions e Assemblage fundadas e dirigidas respectivamente por Eisenman e Hays, fundamentava-se sobre o princípio de que a arquitectura devia ser – ainda – uma forma permanente de resistência contra o capitalismo e o mercado livre. Estas revistas encarregaram-se de fornecer à vanguarda arquitectónica um programa politico-intelectual de esquerda que a habilitasse a resistir, a criticar e a propor alternativas utópicas.
O principal argumento esgrimido pelos ‘projectivos’ é que a critica filosófica baseada nas ideias de Adorno, Jameson e Habermas não é relevante na prática corrente da maior parte dos arquitectos da contemporaneidade. Os pós-criticos acreditam que o criticismo não representa sequer um ponto de partida para um fundamento disciplinar mas um grosseiro erro marxista e que uma ideia de reflexão deve ser substituída por uma prática de «projecção». Sarah Whiting e Bob Somol resumiram este ponto de vista no controverso ‘Notes around The Doppler Effect and Other Moods of Modernism’ (8) onde defendem um modelo teórico que se preocupa com o que chamam «o agora paradigma dominante» – a absorção e exaustão da disciplinaridade por parte da teoria crítica. Discutem a produção de Peter Eisenman em conjunto com a teoria de Hays para demonstrar exactamente isso. Talvez resida neste aspecto a sua distinção mais importante: para Eisenman e Hays disciplinaridade é entendida como autonomia disciplinar da arquitectura (incluíndo crítica, representação e significado), mas não como instrumentalidade (projecção, performatividade, e pragmatismo), e daí a denominação de «projectiva»(9) com que distinguem a sua própria posição.
Teoria e ideologia
A componente ideolológica é fundamental dentro da crítica. Ao longo deste debate, Michael Hays, fez sempre questão de destacar o móbil mais social da disciplina arquitectónica, dentro de uma base filosófica. Dado o (previsível) desaparecimento de vanguardas a curto prazo (por desinteresse da transgressão ao sistema, consequência, mais uma vez das lógicas capitalistas), o problema prende-se mais com uma questão terminológica, não se conseguindo verdadeiramente encontrar diferenças entre as novas tendências projectivas e um pós-modernismo ortodoxo.
Corroborando a necessidade de uma visão ideológica ou política na prática profissional, Roemer van Toorn, do Berlage Institute, utilizou a sua investigação From Fresh Conservatism to Radical Democracy (10) para explicar a ausência de ideologia na maior parte dos escritórios da actualidade que produzem uma arquitectura cínica, uma arquitectura que se destina a produzir piadas, clichés. Invocando a verdadeira necessidade de uma agenda política, van Toorn, sugere uma visão mais abrangente sobre o objecto arquitectónico, mais fenomenológica, projectando-o no quotidiano, multiplicando as relações que ele estabelece. Na sua perspectiva, o cinema e a literatura fornecem-nos pistas que nos podem ajudar a compreender o lado complexo das coisas.
Paradoxalmente essa mesma abordagem provocatória e cínica foi personificada no imediatismo e deslumbramento caricatural de Kamiel Klaasse (NL-Architects) ao apresentar um receituário sobre as posições que um arquitecto pode adoptar relativamente aos cenários com que é confrontado pelo mercado: desde adivinhar o futuro, a esconder-se, a reforçar o sentido «público», a rescrever as instruções de uso, a deformar as regras, entre outras.
Ainda sobre este tema, Reinhold Martin (professor em Columbia) é o único que disseca a questão do suposto carácter pós ideológico (quase niilista) da prática projectiva. Dentro da sua visão de realismo utópico, fundamentada nos projectos artísticos de El Lissitzy, clarificou a aposta no lado social da arquitectura concluindo que não existe nenhuma prática estética que não seja política.
«…A ideia que a chegada do capitalismo abre um imenso campo de possibilidades no qual o arquitecto pode experimentar livremente é ideologia no seu melhor!»(11).
Esta afirmação (que teve direito de resposta por Speaks ao afirmar que «…o mercado é algo que acontece, e o que acontece é realidade, e não ideologia») só vem reforçar o que Hays já havia constatado um pouco antes, que a prática projectiva confirma que o capitalismo tardio se tornou Deleuziano, dado que na sua perspectiva da modernidade, Deleuze sempre procurou teorizar e integrar os seus aspectos positivos e libertadores, e descodificar os fluxos indiciados pelas dinâmicas da economia capitalista.
Teoria e operatividade
Segundo Michael Speaks (UCLA (12)), o conceito de prática projectiva passa por uma reformulação dos próprios meios operativos, quer nos situemos no domínio da prática ou no domínio da teoria. Enquanto que a filosofia era a dominante intelectual das vanguardas no início do século XX (dentro do modernismo) e a teoria a dominante intelectual das vanguardas do final desse século (dentro do pós-modernismo), as técnicas de informação (intelligence) tornaram-se a dominante intelectual das pós-vanguardas do século XXI. Por outras palavras, Speaks não se limita a liquidar o neologismo e a retórica marxista, mas quer discutir ou refutar o princípio iluminista da autonomia do pensamento em relação à prática, ou melhor, o princípio que a teoria possa guiar a pratica arquitectónica. «A acção depende assim da descoberta ou da proclamação de um sistema de verdades ou directrizes, ainda que, como no caso da teoria, a verdade é que não existe nenhuma verdade (…). Não existe a necessidade de uma nova teoria, mas sim de uma nova postura intelectual que incentive a criação ao invés de a inibir.(13)»
Na sua forma de «design intelligence», a teoria assemelha-se mais a uma espécie de compilação de input de dados onde é reunido todo o género de informação directamente relevante para a prática projectual. Já não se trata da relação entre utopia e realidade, mas de uma exploração de estratégias alternativas que sirvam para mudar os nossos desejos e expectativas. Ou seja, abrir-se à potencialidade infinita de futuros possíveis. Criar soluções que já não são meros produtos da imaginação individual ou da autoridade disciplinar, mas o resultado de sistemas manipulados de acordo com os processos sociais ou materiais existentes.
Alargando este problemática a uma escala mais global e operativa, é exactamente a questão que nos coloca M. Christine Boyer (professora em Princeton), ao referir a forma como a cidade, segundo os planos operacionais da máquina de guerra americana, tendencialmente se converte numa peça fundamental de uma estratégia de domínio, controlo e manipulação.
Obviamente que Somol, Whiting e principalmente Speaks viram no discurso de Boyer uma confirmação da passagem da teoria à «design intelligence». O que convenientemente esqueceram foi como esta militarização do pensamento urbano se enquadrava mais na consciência do desastre (expressão de Paul Virilio (14)) aplicada à disciplina arquitectónica. Um exemplo muito claro deste aspecto é o caso de New Orleans (uma plankton city, segundo Koolhaas): um resultado retorcido de processos ou situações sociais condenáveis como a segregação racial e de politicas de gestão do território desastrosas (Aliás, a negligência no planeamento dos diques de New Orleans deveu-se essencialmente, para Boyer, ao dois factores que quando conjugados produzem um efeito inoperativo: ironia pragmática e êxtase tecnológico).
Postas estas questões qual é então a real operatividade de um corpo teórico? Willem Jan Neutelings, sócio principal da Neutelings / Riedjik, reflecte de certa forma o pensamento da maioria dos escritórios da actualidade que lidam com a disciplina numa lógica digamos «empresarial». Justifica a separação entre teoria e prática com base num modelo pragmático (contingente, especulativo, virtual), acomodado à inércia do 'savoir faire', do 'saber construir'; onde as indeterminações naturais resultantes das decisões de projecto recorrem essencialmente à utilização de instrumentos da especificidade arquitectónica. Neutelings exibiu a sua convicção na necessidade de uma eficácia arquitectónica profissional e foi claro ao afirmar que a linguagem deve ser informada por um conhecimento arquitectónico e não pela filosofia, pela teoria ou mesmo pelas ciências computacionais. «Talvez alguns de nossos compromissos mais interessantes sejam compromissos não-críticos, situados sobretudo nas dificuldades de um projecto arquitectónico em lidar com a acumulação de questões económicas culturais, políticas mas também logísticas». De alguma forma Neutelings lembrou um argumento inequívoco: que sendo a arquitectura (ainda) uma condição material é potencialmente inútil conceber conceitos que não encontram uma materialização.
Este desfasamento entre o mundo da teoria e da crítica e o mundo da prática já havia sido confirmado pelo próprio Michael Hays ao admitir que faz teoria (critica) à posteriori da produção arquitectónica.
Será interessante averiguar até que ponto esta prática operativa «projectiva», este «learning by practicing» que é defendida por esta nova geração de teóricos (e que segundo eles é capaz de integrar inovação, autenticidade e possibilidades culturais) será bem sucedida no desenvolvimento de modelos paralelos à crítica que sejam capazes de medir a ambição e a capacidade de transformação social dessas práticas. Sem estes modelos, a arquitectura encontrar-se-á conceptualmente e eticamente à deriva, restando unicamente espaço para uma relação de conveniência, como ironicamente resumiu Bob Somol: «..If architecture i s a symptom. Theory can be the therapy.».
NOTAS
(1) Terry Eagleton, After Theory, Penguin Books, Londres, 2004. O título deste livro foi muito utilizado por alguns exponentes do pós-criticismo para demonstrar a inutilidade das formas tradicionais de produção critica e teórica.
(2) Bob Somol, Sarah Whiting, «Notes around The Doppler Effect and Other Moods of Modernism», Perspecta 33, The Yale Architectural Journal, 2002.
(3) D.B.S.G. STYLOS é uma sociedade sem fins lucrativos independente gerida inteiramente por estudantes da Faculdade de Arquitectura da TU de Delft (Holanda). Em 1996 foi atribuído o prémio Maaskant à STYLOS pela sua iniciativa na organização de debates relacionados com arquitectura e pela sua importância no contexto holandês.
(4) Michael Speaks, «Design Inteligence: Part 1, Introduction», A+U, Dezembro 2002
(5) George Baird, «Criticality and its discontents», Harvard Design Magazine n.21
(6) Idem, Idem
(7) Michael Speaks, op cit.
(8) Bob Somol, Sarah Whiting, op.cit.
(9) Idem, Idem
(10) Roemer van Toorn, Berlage Institute, «From Fresh Conservatism to Radical Democracy»
(11) O cepticismo de Reinhold Martin pode ser verificado no seu polémico artigo «Critical of What?», Harvard Design Magazine n. 22, 2005
(12) University of California Los Angeles
(13) Michael Speaks, op. cit.
(14) A noção ou a consciência do desastre é um conceito fundamental e sempre presente nos escritos de Paulo Virilio («Velocidade e Poder» ou «Velocidade da Libertação»).
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AAI – atelier de arquitectura independente. Fundado em 2003 como resultado de diversas colaborações, desenvolve projectos e estratégias de intervenção para a cidade tendo em vista o seu património social e edificado. Nos trabalhos mais recentes tem procurado reequacionar o posicionamento da arquitectura enquanto entidade motivadora de dinâmicas. Este debate confirmou a possibilidade de tratar-se de uma prática projectiva.
Participa com regularidade em concursos nacionais e internacionais dos quais se podem destacar: 6th OISTAT Theatre Architectural Competition (Praga 2003 – 2º prémio) , SHRINKING CITIES Reinventing Urbanism Competition (Alemanha 2004 «Urban Therapy», finalistas Archplus 173) e One Land Two Systems - Ein Hud international competition (Holanda/Palestina 2004). Participou igualmente em diversas exposições colectivas : SHRINKING CITIES Reinventing Urbanism (DAZ, Berlim 2004) e PROVFLUX 2005 – exposição internacional dedicada à psicogeografia (Providence RI, USA).
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